domingo, 13 de março de 2011
quarta-feira, 9 de março de 2011
Ressaca mental
O cérebro cospe palavras noutra língua que não é a minha, mas é como se fosse. Só pensa nela, com ela.
Chama-se casa ao que de facto faz sentir em casa. E não é saudável saltar de casa em casa, porque o corpo habitua-se, a mente baralha-se e sente-se em casa e depois vai embora e então já não encontra o quarto.
E é um desafio psicológico. Porque sou dos dois lados, mas não me sinto em nenhum e sinto-me nos dois em pleno. E as vidas, e as pessoas, ainda que distantes tornam-se principais num segundo. E são para guardar, mas decidem também essas ir embora de mim. E eu vou ficando mais pobre, todos os dias. Mas tão rica, porque o coração se enche e tenho duas casas, são duas, iguais, ao mesmo tempo. E não dá, porque não se vive em omnipresença.
Estou de ressaca. De ressaca mental.
Das grandes.
E tenho o sono em dia, mas não parece. Estou adormecida, porque é demais para mim, então há que bloquear o exterior e fechar o interior para obras, só umas horas, só para a poeira desaparecer. Estou desligada, sem bateria, hoje não entra nem sai nada. Não há rede.
Beber a água do tempo da ressaca.
É que a vida é boa.
E transcendemo-nos a cada segundo.
Porque como me disse alguém, "L'obbietivo dell'arte è trascendere il reale. Quello della musica è vibrare assieme al'universo e così in sintonia trascendere la realtà." É o objectivo da vida, na verdade. A transcendência. A todos os níveis. Todas as ressacas, todas as perdas, todas as consciências. Todas as trocas de ser, de existência, de aquilo a que chamamos casa. Porque não somos mais que uma alma. E vamos vivendo em nós e lidando connosco nas nossas cabeças e batemos à porta das dos outros, com o coração a medo. E sobrevivemos. Sobrevivemos sempre. E transcendemo-nos nessa sobrevivência e tornamo-nos outros. Mais fracos, mais fortes. Mais felizes. Mais.
Em correria aberta. Sem medos? Com. Mas sem segunda partida. Com corta-matos que compensam certos tropeções, mas que podem também levar a que se perca o caminho. Quem sabe.
É tudo às tentativas.
E a ressaca mental vai passando. Com a água do tempo da ressaca.
E a alma assenta no corpo, com calma, que a paz anda a faltar e há muita agitação, água trémula e assim não se vê o verdadeiro fundo, está turva, mas os sedimentos assentam. Assentam. Porque viver é bom.
sábado, 26 de fevereiro de 2011
Bio
Eu sou o meu jipe, sou as calças de ganga de que tenho saudades durante a semana, sou o trabalho cuja camisola vesti com unhas e dentes. Sou a minha irmã de que tanto falo, sou o meu Erasmus e sou os longínquos Estados Unidos. Sou a eb tanto ainda, sou as minhas memórias e sou as minhas tentativas. Sou as pessoas todas com quem me cruzo, sou cada vez menos o Facebook, sou o mestrado que mudou como vejo o mundo, sou o meu caderno onde me escrevo. Sou as músicas punk que me lembram o secundário a caminho da praia no Inverno e sou as músicas reggae da faculdade. Sou Bologna e sou o mundo por que anseio, sou aprendizagem todos os dias e sou apaixonada pelo sol. Sou o despertador biológico que me acorda às 9h da manhã a um sábado, e sou os fins-de-semana que agora têm tão mais valor. Sou pouco exigente, sou o visual que tenho a mania que não gosto de mudar mas lá vou pintando o cabelo, sou a que tem mania que não gosta de atum e de Malteasers mas gosto. Sou a vontade de ser mais todos os dias, sou as minhas fotografias e o meu sorriso 33, sou à prova de bala mas a quem se lhe aperta o coração. Sou os saltos altos que me fazem parecer mais crescida, sou a independência, sou a pulseira às cores e sou as guitarras que soam desde sempre. Sou os livros que devoro, sou a minha infância e a minha franja e o meu cabelo liso, e sou as idas ao cinema a pé. Sou as colheres roxas da Haagen Dazs e sou todas as páginas de cartas que troquei. Sou o meu Farol, sou mais realista e sou a antiga jogadora de futebol feminino. Sou as minhas amizades distantes e as viagens que faço por elas. Sou os reencontros e sou também os afastamentos, sou as escolhas e as circunstâncias. Sou isto e sou mais.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
domingo, 20 de fevereiro de 2011
Monstro
Que se lixem os moralismos, que se lixem vocês todos, que se lixem as coisinhas bonitas. Que se lixem os girassóis. Somos todos pessoas, é um facto, mas não somos farinha do mesmo saco. E deixem-me em paz a achar que eu sou como vocês, não sou porque sou um pântano e estou-me nas tintas. Não tenho sentimentos nem conteúdo, o que é que vos interessa? Vão andar todos a foder uns com os outros. Fizeram-no comigo, é indiferente. Tornaram-me um mostro, todos juntos, em procissão. Ou fui eu, que sou o denominador comum. Atirei-me ao abismo a pés juntos, com vontade, com convicção. Agora não saio lá de baixo, deixem lá, não se preocupem em puxar-me. Eu fico aqui que está quente. Mesmo que me puxem, os ossos partem-se, vão-se partindo, só o coração é que não, que é de pedra. Só tem mágoa mágoa mágoa e frustração. E ninguém vai conseguir lá entrar, nunca. Não tem porta e selou as janelas. É um facto, não vale a pena argumentar. Agora não esperem nada de mim, porque como vos digo, nada terão. Porque não sai nada. Nem bem esprimidinho. Não existe nada para ninguém.
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