Tenho muitas memórias. E às vezes é uma chatice, porque surgem coisas tipo pop-up e eu só quero que fiquem lá na gaveta de baixo sossegadas. O problema é quando quero ir buscar umas caixas lá atrás e depois caem outras e abrem-se e revelam-se e depois eu falo demais e é tudo um disparate. Ainda que não faça mal nenhum, porque se estão guardadas, boas ou más, são boas. E são minhas e dos outros. Mas minhas primeiro, com as minhas etiquetas e as minhas regras de arrumação.quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Storage room
Tenho muitas memórias. E às vezes é uma chatice, porque surgem coisas tipo pop-up e eu só quero que fiquem lá na gaveta de baixo sossegadas. O problema é quando quero ir buscar umas caixas lá atrás e depois caem outras e abrem-se e revelam-se e depois eu falo demais e é tudo um disparate. Ainda que não faça mal nenhum, porque se estão guardadas, boas ou más, são boas. E são minhas e dos outros. Mas minhas primeiro, com as minhas etiquetas e as minhas regras de arrumação.segunda-feira, 13 de setembro de 2010
E depois?
E depois?
Depois ela berrou, esperneou, partiu a mesa. E ele agarrou-a, acalmou-a e fê-la chorar.
E depois as entranhas sucumbiram e saíram e juntaram-se ao carvão dos passeios, tão pesadas como os comboios que te pisam mesmo só na pontinha, ali na pontinha dos pés. E ela ficou sem ar. E foi a respiração boca a boca, os lábios dele a aproximarem-se, carnudos, húmidos para não a assustarem, cada vez mais próximos e ela que esperneava porque queria respirar com ele longe dali, que ele tira-lhe o ar, e ele aproximava-se, e ela afastava-o, e sacudia os braços, os olhos, os pêlos alourados dos braços, e os olhos dela fecharam-se, aliás, ela fechou-os como que para não ver e ele respirou. E ela engasgou-se. E respirou também. E ficou tudo azul, as pálpebras, as pontas dos dedos, roxo, parecia que ia rebentar, que o coração ia explodir, mas devagarinho, devagarinho... devagarinho adormeceu e não se sabe por quanto tempo, porque nunca mais acorda, a preguiçosa, não quer lutar pela vida e ele continua ali, já sem folgo para lhe dar ar, mas ali à espera que ela deixe de ser parva e se levante porque já são horas e já se está a fazer tarde e o táxi não espera.
Depois ela berrou, esperneou, partiu a mesa. E ele agarrou-a, acalmou-a e fê-la chorar.
E depois as entranhas sucumbiram e saíram e juntaram-se ao carvão dos passeios, tão pesadas como os comboios que te pisam mesmo só na pontinha, ali na pontinha dos pés. E ela ficou sem ar. E foi a respiração boca a boca, os lábios dele a aproximarem-se, carnudos, húmidos para não a assustarem, cada vez mais próximos e ela que esperneava porque queria respirar com ele longe dali, que ele tira-lhe o ar, e ele aproximava-se, e ela afastava-o, e sacudia os braços, os olhos, os pêlos alourados dos braços, e os olhos dela fecharam-se, aliás, ela fechou-os como que para não ver e ele respirou. E ela engasgou-se. E respirou também. E ficou tudo azul, as pálpebras, as pontas dos dedos, roxo, parecia que ia rebentar, que o coração ia explodir, mas devagarinho, devagarinho... devagarinho adormeceu e não se sabe por quanto tempo, porque nunca mais acorda, a preguiçosa, não quer lutar pela vida e ele continua ali, já sem folgo para lhe dar ar, mas ali à espera que ela deixe de ser parva e se levante porque já são horas e já se está a fazer tarde e o táxi não espera.
domingo, 29 de agosto de 2010
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Ilha
É perfeito. Tudo é perfeito. O seu ar, o seu cheiro, a sua cor. A sua essência, as sensações que me faz sentir. A luz, o seu calor natural. Todos os anos anseio, todos os anos não me desiludo. À medida que o tempo se aproxima, começa o turbilhão, a expectativa, a vontade. Quando se avista ao longe, as narinas revolvem o estômago, os olhos piscam para focar e só não corro porque o mar não deixa.
O cocktail molotov de emoções não tarda, sei bem. Mais cedo ou mais tarde, chega, baralha, é tudo uma confusão, umas lágrimas de emoção pura, de enchimento interno, de querer mais, de querer ficar e engolir toda esta mística tão diferente durante um dia infinito.
E nesta ilha há um farol.
E é, muitas vezes, o melhor lugar do mundo.
O cocktail molotov de emoções não tarda, sei bem. Mais cedo ou mais tarde, chega, baralha, é tudo uma confusão, umas lágrimas de emoção pura, de enchimento interno, de querer mais, de querer ficar e engolir toda esta mística tão diferente durante um dia infinito.
E nesta ilha há um farol.
E é, muitas vezes, o melhor lugar do mundo.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Aniversário
Deixou-se sentir mesmo no final do dia, do dia que já não é dia porque as horas dizem que já é outro, mas que ainda o é, porque o dia para si ainda não tinha chegado ao fim. Só aí deixou cair as armaduras, quando proferiu em voz alta que dia era. E aí o subconsciente reagiu de forma incompreensível, porque a vida, e o fim dela, são do mais inexplicável do seu ser. O corpo revelou-se, transformou-se da forma que a mente mandou sem saber. Exprimiu-se por si só, sem forças sociais nem pressões individuais. Simplesmente foi. E aí soube, aí soube que os sentimentos que nutriu, que nutre se manterão, embora escondidos dentro de si e do dia-a-dia. Porque podemos estar em mundos diferentes, em patamares de evolução diversos, em realidades distintas, mas estamos sempre juntos.
terça-feira, 3 de agosto de 2010
A torre
Há teorias. Há teorias que poderiam ser provadas facilmente. É que há anos foi feita uma construção meio duvidosa. De um momento para o outro, aquela torre enorme apareceu. Cinzenta, invasora, com uma luz vermelha lá em cima, tão lá em cima. É que a torre é mesmo alta! E não condiz nada com o ambiente em que foi posta.
Há teorias que dizem que é a torre do mal. Que antes tudo era pacífico, apaixonante e cheio de emoções, mas pacífico, sem dramas. E que desde o ano em que a torre apareceu, tudo se alterou. Há meias palavras, apertos no peito e mil vontades tão incontroláveis.
Diz-se que a torre mexe com a líbido, que nos baralha a todos, que chegamos aqui normais, mas nunca mais reagimos de forma normal, vemos desejos onde durante o ano nem saudações existiam. Mexe com a líbido, as pessoas ganham importâncias desmesuradas, irracionais.
E há consequências.
Mas a culpa só pode ser da torre, porque isto antes não era assim.
Há teorias que dizem que é a torre do mal. Que antes tudo era pacífico, apaixonante e cheio de emoções, mas pacífico, sem dramas. E que desde o ano em que a torre apareceu, tudo se alterou. Há meias palavras, apertos no peito e mil vontades tão incontroláveis.
Diz-se que a torre mexe com a líbido, que nos baralha a todos, que chegamos aqui normais, mas nunca mais reagimos de forma normal, vemos desejos onde durante o ano nem saudações existiam. Mexe com a líbido, as pessoas ganham importâncias desmesuradas, irracionais.
E há consequências.
Mas a culpa só pode ser da torre, porque isto antes não era assim.
Um igual, todos diferentes
Só há um igual. Quando se é igual, é-se igual a alguma coisa, da mesma forma, do mesmo modo. É-se uma cópia, bem ou mal feita, é igual, e só pode ser de uma forma.
Quando se é diferente, é-se diferente de mil maneiras. Há mil diferentes, todos diferentes uns dos outros e diferentes da original. Ser, fazer diferente dá-nos liberdade infinita. Ser igual constrange-nos à base, ao modelo. Ou se é igual daquela forma, ou se é automaticamente diferente.
Quando se é diferente, é-se diferente de mil maneiras. Há mil diferentes, todos diferentes uns dos outros e diferentes da original. Ser, fazer diferente dá-nos liberdade infinita. Ser igual constrange-nos à base, ao modelo. Ou se é igual daquela forma, ou se é automaticamente diferente.
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