Arranho as paredes com força até que o verniz estala e as unhas se partem sempre que ouço o nome dela e o teu nas vozes dos outros a falar de pessoas que não são vocês. É uma pena ter-te eliminado dos meus dias e desinfectado cada mancha tua com lixívia, porque tu fazias-me escrever com as vísceras. Agora olha, sou só pacífica e a vida corre como aqueles rios que não têm nunca fim, cruzo-me com umas ilhotas pelo meio onde descanso e gasto o meu tempo inutilmente e sigo caminho que o próximo passo está a umas semanas de distância e até lá só se engana a vida sem a viver.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Bicicleta
Hoje decidi tirar o pó à bicicleta, afastar as dores de cabeça e rumar à estrada, às ciclovias e pedalar pedalar durante quase duas horas, com uma pit-stop para um lanchinho com a Avó.
E há muito tempo que algo não me sabia tão bem. Aproveitar o dia de Primavera que está, ir a lugares aqui ao lado a que não ia há demasiado tempo e são pura natureza urbana, transpirar, observar a vida citadina, os velhotes que se passeiam, os namorados que se beijam, os dois ou três outros ciclistas que passam, os skateboards que mostram o seu estilo. E tudo aqui ao pé, a uma preguiça de distância.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Escritor
E que faz de um escritor um bom escritor?
É a história que cria, a sua imaginação?
Ou é o estilo que desfila nas suas páginas?
É que se é o caso da segunda hipótese, as traduções aniquilam tudo, o estilo fica lost in translation.
É a história que cria, a sua imaginação?
Ou é o estilo que desfila nas suas páginas?
É que se é o caso da segunda hipótese, as traduções aniquilam tudo, o estilo fica lost in translation.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Palavras
Enfeitiço-me com palavras. Sempre fui assim. Derreto-me, altero-me, identifico-me. É um atractivo que me comove, que me faz sentir que conheço melhor as pessoas num instante. Porque é raro quem se exponha dessa forma já que, querendo ou não, as nossas palavras são um espelho, mais ou menos embaciado, do que somos.Quando as palavras se juntam à guitarra e a mais apetrechos, aí sim, o mundo cai, rodopia e o estômago manifesta-se num desconhecido sentido. Dou por mim a fazer coisas sem nexo, mais próxima de quem não existe, de quem não existia há 10 minutos atrás.
Para além disso, tenho a mania de sentir que sinto quando as pessoas têm bom fundo, quando transpiram ser boas, então chego mais, desvendo os meus segredos através das minhas palavras. E depois a surpresa é boa quando acerto, quando me surpreendem e me fazem ler coisas bonitas.
Apesar de todas as circunstâncias, é honrável. É que temos a mania que as pessoas não valem a pena, que se os estranhos não fazem parte da nossa vida, é porque não faz sentido fazerem. Por vezes, é preciso mexer o dedo, é preciso arriscar, ainda que de formas mínimas, e a maioria das vezes só ficamos a ganhar. Nós e os outros. Porque a troca de experiências, palavras, existências, por muito curtas, por muito pouco que 2 dias sejam, valem a pena, mesmo ficando só por aí.
domingo, 24 de outubro de 2010
L'Auberge Espagnole
Vi, completamente fora de tempo, o L'Auberge Espagnole, que retrata o Erasmus de um rapaz francês em Barcelona, rodeado de outras imensas nacionalidades. E gostei muito. Retrata extremamente bem o que é o Erasmus, através de pormenores que transmitem sensações acertadas e reais, e não o típico cliché cheio de excessos, festas, sexo, álcool, em que não existe tempo para desenvolvimento pessoal nem para estudos. Pelo contrário, é calmo, tranquilo, smooth, onde há um pouco de todos esses elementos, mas de forma real, ponderada, adaptada aos seres humanos que todos somos.
Fala do caos inicial em que nos dispomos às situações mais awkward de sempre na tentativa de nos sentirmos em casa o mais depressa possível. Dispomo-nos a falar com pessoas extremamente estranhas, a ir a locais em sítios duvidosos, só porque a única pessoa com quem trocámos umas palavras diz que vale a pena, dormimos em casa de gente conhecida há meia hora, por aceitarmos que são os nossos melhores amigos do momento.Depois surge a ligeireza e a descontracção com que o tempo passa. As descobertas, as pessoas que se tornam importantes, os sacos do supermercado, o limpar a casa-de-banho ou as cervejas a mais. Tudo se vai desenrolando de forma polida, serena, com altos e baixos, mas sempre em altas, o dia-a-dia preenche, aquela vida torna-se vida completa, assim, tranquilamente.
Depois lá chega o momento em que se tem de voltar para casa, para o nosso país, onde tudo é estático, parado no tempo e parece não fazer qualquer sentido.
Gostei de o ver fora do tempo, na verdade. Não antes de Erasmus, não durante, não logo depois. Não antes porque cria expectativas, porque não iria entender metade das sensações que passam para fora do ecrã, porque iria criticar a falta de intensidade. Que existe e está lá, mas demonstrada de uma forma mais realista. Não durante, porque comparações seriam feitas e não há nada comparável em Erasmus com os Erasmus dos outros, com os outros enquanto pessoas ao nosso lado, vivemos e experienciamos tudo de forma completamente diferente e não há meio de igualizar. E, por fim, não logo após o meu Erasmus, porque me traria saudades não saudáveis, porque me faria repisar o facto de voltar não fazer sentido e não seria bom de forma alguma.
Vê-lo agora foi um bom timing. Já lá vão uns dois anos e passado esse tempo todo tive a sorte de ter tido agora mais um dia cheio do ar do meu Erasmus, da minha Bologna, com as minhas portas abertas a pessoas que me enchem do melhor que sou, do carinho, da verdade, pessoas que apareceram nesse meu tal Erasmus e que permanecerão na minha vida. Porque Erasmus não é só festa, não é só provisório. Erasmus pode ser vida, criação e amigos para sempre.
sábado, 23 de outubro de 2010
Portas abertas
É disto que eu gosto. Ter as portas abertas, escancaradas, sentir-me rodeada e a minha vida ser-me suficiente.
É disto que eu gosto.
Partilhar bolachas, confidências, cama e shampoo. Com amigos e vizinhas de sempre.
Os dias e as noites não terem fim e atropelarem-se e o ontem ser já hoje mas ainda não ter acabado.
Os braços abertos, jantares partilhados, séries, mantas e risos. Num espaço que é meu.
Viver de portas abertas. É por isto que anseio.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Outrora
E quando visto a camisola que foi para o armário exactamente depois de me abraçares, há 15 anos atrás, e ainda cheira àqueles tempos? Não a ti mas a mim e me envolvem umas reminiscências de quando os abraços surgiam a toda a hora. Agora somos já velhos, enrugados, as mãos trémulas fingem-se suficientes e os braços ficam sem efeito. É pena acharmos que somos velhos demais para amar com o corpo, é pena acharmos que o silêncio desvenda o que vai dentro do nosso peito. É que sabe bem ouvir as mesmas coisas, é que às vezes esquece-se. Às vezes gostaria de voltar a rodopiar de mãos dadas contigo, ficar tonta tonta e não me importar de cair, ficar com uns arranhões, porque tu me levantavas logo a seguir e davas-me um sorriso e um beijo na testa. Nessa altura os corpos existiam e as palavras também. Havia tudo. As cartas eram longas, cheias de sentimentos e forças da natureza, as pernas entrelaçavam-se no banco do jardim e as conversas terminavam só depois de estarmos a dormir e a sonhar um com o outro, de mãos dadas para sempre. Aí sim, tudo era eterno. Agora a relatividade e a crença que para a próxima é que é têm ganho espaço e poder nas nossas vidas. Estamos sempre à espera do que vem a seguir, não nos contentamos, o presente é só uma passagem em vez de ser o momento. Andamos mesmo confusos com a vida.
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