Os sapos saltam.
E eu continuo a engoli-los.
domingo, 29 de agosto de 2010
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Ilha
É perfeito. Tudo é perfeito. O seu ar, o seu cheiro, a sua cor. A sua essência, as sensações que me faz sentir. A luz, o seu calor natural. Todos os anos anseio, todos os anos não me desiludo. À medida que o tempo se aproxima, começa o turbilhão, a expectativa, a vontade. Quando se avista ao longe, as narinas revolvem o estômago, os olhos piscam para focar e só não corro porque o mar não deixa.
O cocktail molotov de emoções não tarda, sei bem. Mais cedo ou mais tarde, chega, baralha, é tudo uma confusão, umas lágrimas de emoção pura, de enchimento interno, de querer mais, de querer ficar e engolir toda esta mística tão diferente durante um dia infinito.
E nesta ilha há um farol.
E é, muitas vezes, o melhor lugar do mundo.
O cocktail molotov de emoções não tarda, sei bem. Mais cedo ou mais tarde, chega, baralha, é tudo uma confusão, umas lágrimas de emoção pura, de enchimento interno, de querer mais, de querer ficar e engolir toda esta mística tão diferente durante um dia infinito.
E nesta ilha há um farol.
E é, muitas vezes, o melhor lugar do mundo.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Aniversário
Deixou-se sentir mesmo no final do dia, do dia que já não é dia porque as horas dizem que já é outro, mas que ainda o é, porque o dia para si ainda não tinha chegado ao fim. Só aí deixou cair as armaduras, quando proferiu em voz alta que dia era. E aí o subconsciente reagiu de forma incompreensível, porque a vida, e o fim dela, são do mais inexplicável do seu ser. O corpo revelou-se, transformou-se da forma que a mente mandou sem saber. Exprimiu-se por si só, sem forças sociais nem pressões individuais. Simplesmente foi. E aí soube, aí soube que os sentimentos que nutriu, que nutre se manterão, embora escondidos dentro de si e do dia-a-dia. Porque podemos estar em mundos diferentes, em patamares de evolução diversos, em realidades distintas, mas estamos sempre juntos.
terça-feira, 3 de agosto de 2010
A torre
Há teorias. Há teorias que poderiam ser provadas facilmente. É que há anos foi feita uma construção meio duvidosa. De um momento para o outro, aquela torre enorme apareceu. Cinzenta, invasora, com uma luz vermelha lá em cima, tão lá em cima. É que a torre é mesmo alta! E não condiz nada com o ambiente em que foi posta.
Há teorias que dizem que é a torre do mal. Que antes tudo era pacífico, apaixonante e cheio de emoções, mas pacífico, sem dramas. E que desde o ano em que a torre apareceu, tudo se alterou. Há meias palavras, apertos no peito e mil vontades tão incontroláveis.
Diz-se que a torre mexe com a líbido, que nos baralha a todos, que chegamos aqui normais, mas nunca mais reagimos de forma normal, vemos desejos onde durante o ano nem saudações existiam. Mexe com a líbido, as pessoas ganham importâncias desmesuradas, irracionais.
E há consequências.
Mas a culpa só pode ser da torre, porque isto antes não era assim.
Há teorias que dizem que é a torre do mal. Que antes tudo era pacífico, apaixonante e cheio de emoções, mas pacífico, sem dramas. E que desde o ano em que a torre apareceu, tudo se alterou. Há meias palavras, apertos no peito e mil vontades tão incontroláveis.
Diz-se que a torre mexe com a líbido, que nos baralha a todos, que chegamos aqui normais, mas nunca mais reagimos de forma normal, vemos desejos onde durante o ano nem saudações existiam. Mexe com a líbido, as pessoas ganham importâncias desmesuradas, irracionais.
E há consequências.
Mas a culpa só pode ser da torre, porque isto antes não era assim.
Um igual, todos diferentes
Só há um igual. Quando se é igual, é-se igual a alguma coisa, da mesma forma, do mesmo modo. É-se uma cópia, bem ou mal feita, é igual, e só pode ser de uma forma.
Quando se é diferente, é-se diferente de mil maneiras. Há mil diferentes, todos diferentes uns dos outros e diferentes da original. Ser, fazer diferente dá-nos liberdade infinita. Ser igual constrange-nos à base, ao modelo. Ou se é igual daquela forma, ou se é automaticamente diferente.
Quando se é diferente, é-se diferente de mil maneiras. Há mil diferentes, todos diferentes uns dos outros e diferentes da original. Ser, fazer diferente dá-nos liberdade infinita. Ser igual constrange-nos à base, ao modelo. Ou se é igual daquela forma, ou se é automaticamente diferente.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Final feliz
Orgulhava-se do seu passado. Orgulhava-se da sua vida, das suas escolhas, das suas conquistas. Desde sempre, tinha sido uma pessoa exemplar, dedicada, decidida. Dava o melhor de si e exigia um pouco menos que isso. Sabia à partida que nem toda a gente era capaz de ser perfeita, que era necessário dar um desconto, nem que fosse para evitar desilusões. Chegou, no entanto, a passar por uma fase em que acreditava que podia melhorar o mundo. E visto que o mundo é feito de pessoas, julgou-se capaz de fazer os outros serem mais, crescerem e serem boas pessoas. Sofreu de frustração, porque como se sabe, ninguém muda ninguém. Pelo menos não voluntariamente ou da forma que se quer. Então voltou a exercer só o melhor de si, sempre, sem pausas.
Odiou. Escorregou. Amou demais. Sempre sendo o melhor de si, foi capaz de sentimentos cruéis, embora justos, e de paixões vazias, embora verdadeiras. Experienciou diversos lados da moeda, abraçou todos e escreveu-os ao pormenor. Descrição a descrição, para nunca se esquecer das suas aprendizagens. Ou pelo menos para as poder rever passado uns tempos.
Foi nessas descobertas do passado que se cruzou com o seu pesadelo, com a pedra no sapato. Começou a lidar de peito aberto, como se estivesse tudo sarado. Mas cedo entendeu que isso nunca acontecerá. E que a atitude certa é óbvia. Apagou tudo, com força na borracha, tanta força que quase rasgava o papel já amarelado do tempo. Apagou com afinco. E deixou no fundo do caixote. Porque tinha chegado ao fim.
Odiou. Escorregou. Amou demais. Sempre sendo o melhor de si, foi capaz de sentimentos cruéis, embora justos, e de paixões vazias, embora verdadeiras. Experienciou diversos lados da moeda, abraçou todos e escreveu-os ao pormenor. Descrição a descrição, para nunca se esquecer das suas aprendizagens. Ou pelo menos para as poder rever passado uns tempos.
Foi nessas descobertas do passado que se cruzou com o seu pesadelo, com a pedra no sapato. Começou a lidar de peito aberto, como se estivesse tudo sarado. Mas cedo entendeu que isso nunca acontecerá. E que a atitude certa é óbvia. Apagou tudo, com força na borracha, tanta força que quase rasgava o papel já amarelado do tempo. Apagou com afinco. E deixou no fundo do caixote. Porque tinha chegado ao fim.
sábado, 10 de julho de 2010
O último relvado da tarde
Era daqueles dias de Verão, de brisa pesada, do sol que queima as costas enquanto atravessamos a estrada. Era daqueles dias em que nem faz mal passarmos por um jacto de rega da relva, que sabe bem, refresca, damos uma corridinha e mandamos um leve gargalhada absurda. Daqueles dias em que os gelados sabem melhor, ou as caipirinhas, ou as imperiais. Em que não se ouve música específica nenhuma, em que tudo é energia, em que a rua sabe a casa. E o dia vai passando, os olhos vibram de brilho, parecemos mais leves com um bronze de jeito. O sol decide começar a descer, dar descanso à nossa pele que hoje não deu oportunidade ao sal do mar, deixar-nos tirar os óculos de sol e ver aquele jardim como é. E a esse jardim todos vêm, mais cedo ou mais tarde. Nesse jardim todos se encontram, um dia ou outro. Há dias em que vêm todos, outros em que só aparecem meia dúzia. Mas é nesse jardim, nesse relvado que se vê o sol a pôr-se. É nesse relvado que o dia acaba, que se descansa a cabeça e se sorri pelos feitos do dia de férias. Que se troca uma piada para o lado, um risinho, uma mão dada discretamente para ninguém ver. Uns 2 centímetros mais perto que não se notam, mas fazem o coração galopar. O sol desce desce, desaparece, e fica aquele silêncio em sorriso. Ali, no último relvado da tarde.
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